quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

O abismo



A guerra na Ucrânia é um abismo de loucos cujos autores não sabem como, nem quando, vão acabar com ele.
Ver o vídeo até ao fim.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Raúl Brandão-biografia

 
 


Raúl Brandão, militar, escritor e jornalista:

"Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outra tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho poluído. Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida, titubeando como a comecei. Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares, extraio ternura de uma pedra."

Nota: Prefácio do 1º. volume das Memórias de Raúl Brandão.

"Frequentou o curso superior de Letras, mas ingressou na carreira militar. Colocado em Guimarães, retirou-se para a Casa do Alto, quinta próxima de Guimarães, local de produção da maior parte da sua obra literária, alternando o isolamento nortenho com estadias em Lisboa, onde desenvolveu paralelamente uma atividade jornalística, tendo colaborado em publicações como o Imparcial, Correio da Noite, Correio da Manhã e O Dia. Nestes últimos, é constante o seu debruçar sobre o terrível drama da condição humana, perpassado pelo sofrimento, a angústia, o mistério e a morte. São também constantes as referências aos ofendidos e humilhados, face visível da expressão humana que é um dos motivos mais regulares na sua obra."

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Autopsicografia do professor português


Não sou professor, mas fui aluno e tive bons professores. Acredito que a classe docente é nuclear para a formação de bons cidadãos e futuros dirigentes do País. É inacreditável a actual situação dos professores e não compreendo porque é que o poder político destrata tanto a classe docente e a obriga a defender, pela via da greve, a dignidade e a melhoria da sua profissão. Daí porque dou à estampa  o artigo de opinião que se segue:

"O cansaço que nasce disto tudo não é metafísico nem poético, é um sintoma de exaustão que empurra os professores para um espaço fora de si mesmos. Os professores portugueses mereciam outro país.

Se quisermos compreender o estado de alma de um professor português de hoje, se alguém quiser analisar a sua autopsicografia, comece por ler o poema O que há em mim é sobretudo cansaço, de Álvaro de Campos, e encontrará aí o melhor retrato psicológico do professor português de hoje. “Um supremíssimo cansaço”, num dos versos do poema, é aquilo que sentem
os professores que nas últimas décadas se têm adaptado a todas as modificações que lhes impuseram na sua vida profissional. Agora rebentaram as águas do desespero, da exaustão de quem não aguenta mais as vicissitudes da sua profissão.

O professor português cumpriu tudo o que lhe pediram nas últimas décadas, a cada mudança curricular, a cada mudança do sistema de avaliação, a cada mudança dos processos de gestão escolar, a cada regra nova que chegou à sua escola quase diariamente. Foi calando, foi desabafando com os seus pares, porque a sociedade desistiu de o compreender, tentou pequenos protestos e nada resultou. Não me surpreende ver este reerguer de toda uma classe de forma espontânea, como se todos pertencessem ao mesmo partido da educação, que não existe, mas que devia existir, que não tem fronteiras políticas e que obedece apenas ao coração de cada um. Se na Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, aprendemos como se constrói o sentimento colectivo do povo português pela consciência de que todos pertencemos a uma mesma nação ou comunidade, esta “arraia-miúda” de professores que agora veio para as ruas transporta o mesmo sentimento colectivo de uma nação de professores que não aceita mais a discriminação social e política.

Cada vez tenho menos argumentos para convencer jovens estudantes a optar por esta profissão. Como explicar-lhes que o Estado trata os professores de forma diferente: aos governantes que declarem residir fora de Lisboa dá-lhes ajudas de custo no valor do ordenado mínimo; aos médicos que queiram ir trabalhar longe de casa, a partir de 2024, através do programa “Mais médicos”, dá-lhe um aumento salarial de 40% e casa para morar; aos restantes funcionários públicos conta-lhes todo o tempo de serviço prestado, mas deixa os professores de fora nesta equação; na Madeira e nos Açores, os professores conseguiram recuperar faseadamente todo o tempo de serviço; no continente, os professores continuam à espera dessa recuperação, embora todos descontem por igual para a Caixa Geral de Aposentações; os técnicos superiores da função pública com doutoramento foram aumentados 400 euros, mas os muitos professores que hoje já têm doutoramento ficaram exactamente onde estão, com o mesmo dinheiro e sem uma justa progressão na carreira.

Como explicar ainda aos jovens aprendizes de professor que aquilo que têm de ensinar amanhã não é um currículo completo, mas apenas aprendizagens essenciais que nunca foram concebidas para serem currículo completo? Como explicar-lhes a lógica de um sistema de avaliação de aprendizagens que anula a função de um professor e o transforma num polícia de comportamentos que vai anotando em grelhas insanas cada estímulo recebido, sobrando tempo nenhum para o acto de ensinar, de pensar naquilo que se ensina e de ajudar a aprender verdadeiramente?

O cansaço que nasce disto tudo não é metafísico nem poético, é um sintoma de exaustão e descrença profissional que empurra os professores para um espaço fora de si mesmos: já não agem, apenas reagem; já não pensam no seu próprio discurso de aula, apenas informam; já não conseguem avaliar aprendizagens, apenas registam resultados visíveis.

 Em matéria de educação, os programas de todos os partidos portugueses são paupérrimos. Não há um plano estratégico a médio, longo prazo, tudo é pensado para o momento ou para o tempo de uma legislatura. Mudanças eficazes em educação exigem muito mais tempo de maturação e, sobretudo, visão estratégica. Se no início deste ano lectivo, em França, faltavam 4000 professores, o Presidente francês, Emmanuel Macron, prometeu que nenhum professor iniciaria a sua carreira profissional com salário inferior a 2000 euros e tentou assim atrair novos profissionais.

Nos EUA, o American Rescue Plan Act, de Joe Biden, representou em 2021 o maior investimento público de sempre em educação, com 170 biliões de dólares, focado sobretudo na contratação de mais professores e combate ao abandono escolar. A República da Irlanda, país da nossa dimensão, tem um orçamento de quase dez mil milhões de euros para a educação em 2023, dos quais dois mil milhões para contratar novos professores. Estes são breves exemplos de políticas com visão estratégica de quem quer realmente apostar na educação e nos professores.

Também começo a sentir “um supremíssimo cansaço” disto tudo. Em breve, terei de enfrentar, num único seminário, 150 novos candidatos a professor. Hei-de elogiar em primeiro lugar a sua coragem por estarem ali; hei-de encontrar o melhor discurso possível para lhes explicar a nobreza da profissão; serei realista ao descrever o local para onde irão trabalhar no futuro, não esconderei nenhuma vicissitude, apelarei ao melhor de cada um para que possam sobreviver a esta profissão e no final, se possível, que encontrem o prazer de ensinar. Só não sei quantos ficarão até ao fim do curso e quantos irão sobreviver ao primeiro impacto da vida real.

Ninguém acolhe um jovem professor numa terra estranha. Poucos sobrevivem com apenas 1000 euros líquidos para alimentação, alojamento e viagens e muitos têm de pedir ajuda aos pais para poderem trabalhar. Parecem condenados a sentir logo “um supremíssimo cansaço” assim que experimentam a profissão pela primeira vez.

O professor português não é um fingidor e sente todas as suas dores. Mais, tem de gerir as dores de todos à sua volta diariamente, substituindo tantas vezes aqueles que tinham a responsabilidade de cuidar dos afectos dos seus alunos. Hoje, tudo se pede a um professor, pede-se-lhe a responsabilidade total de educação de um jovem, embora seja pago apenas para ensinar, por isso, reconhecer que os professores estejam cansados, supremissimamente cansados, devia ser suficiente para reconhecer que o seu protesto de classe é justo. Os professores portugueses mereciam outro país."

Carlos Ceia- Professor Catedrático da FCSH da Universidade Nova de Lisboa

 

 

sábado, 21 de janeiro de 2023

A peregrinaCão de Artur Vilar

 


Começa assim o livro, “A peregrinação de Artur Vilar”, do escritor de origem Figueirense, Eduardo Palaio:

Meu pai, um figueirense dos antigos, quer dizer, daqueles para quem a Figueira é a terra mais linda e a melhor em tudo, foi quem me falou primeiro, era eu criança, do Soldado Desconhecido.
Depois, pela Rua Fresca, pela Rua Bela e pela de Santo António, conheci uns velhotes e que usavam uns emblemas iguais na lapela e que tinha andado com o Soldado Desconhecido, como aconteceu com o pai do Reis Jorge, meu colega no Conde Ferreira, de quem se dizia ser gaseado.

Na contracapa, em jeito de introdução, lê-se:
Artur Vilar saiu da Figueira da Foz natal e foi para Angola como voluntário nos primeiros anos do século XX. Diz de si próprio que foi duas vezes cativo, entrou numa guerra mundial e em mais cinco campanhas militares, foi quatro vezes ferido em combate e ficou três meses prostrado na cama por uma cadeirada que o pai lhe deu; foi conspirador e guerreou debaixo de duas bandeiras e dois hinos, teve três esposas, foi dono de roça, sapateiro, pedreiro e caçador por sua conta e por conta de outros; esteve num lazareto, apanhou febre-amarela, pneumónica e seis biliosas; foi pasto de piolhos, teve destino de branco e de negro; nunca levou uma medalha, nem ninguém ouviu falar dele na sua terra. Esta é a história da sua peregrinação, no meio da qual, ao prepararem-se para lhe fazerem uma raspagem sem anestesia no hospital do Lubango, lhe atiraram carinhosamente: “Aguenta, Cão!”

NOTA- Faço aqui um despretensioso comentário: Uma história extraordinária,  muito bem contada por um escritor de eleição que nos prende até à última página. Fala de Lavos, Gala, Buarcos e Tavarede. Um livro que todos os Figueirenses deviam ler.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Deixem estar o Hino Nacional




Deixem estar o Hino Nacional como está que é o símbolo de um País com mais de 800 anos de existência, com uma linda e extraordinária história e o mais antigo Estado Nação da Europa. Não embirrem com os canhões. Os predadores da Pátria (vulgo, ladrões) são tantos que nunca se sabe se os canhões vão ser precisos.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Feliz Natal

Desejo a todos os meus amigos, leitores do Limonete e facebook um Feliz Natal em companhia dos seus familiares com saúde e alegria. Que todos realizem os seus sonhos e que nenhum de nós perca a esperança num Mundo melhor e sem guerras: "Paz na Terra aos Homens de boa vontade."

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

O Futebol e a Política

 



É dos livros que o binómio Futebol/Política tem sido aproveitado através dos tempos por ditadores e democratas para fins que têm pouco a ver com a transparência desportiva e mais com os interesses dos respectivos regimes ou dos seus próprios interesses.

A realidade é que o futebol ainda nos vai dando algumas alegrias. Mas, quanto ao que é importante, aqueles que continuam a dizer que a vida dos portugueses vai ser cada vez mais difícil correm o risco de serem considerados maus profetas e os opositores mais detestados do poder político.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Há 47 anos, o difícil caminho da democracia.



Nunca é demais recordar.

Na manhã de  25 de Abril de 1974, Portugal acorda com uma revolução ou golpe militar, contra a ditadura (consoante a interpretação de algumas fontes). Em 25 de Novembro de 1975, começa o início difícil da democracia do país ameaçado por forças totalitárias de cariz comunista

O confronto militar de consequências imprevisíveis esteve eminente. Uma ditadura de cariz comunista pior do que a anterior esteve por um fio. De um lado os militares patriotas moderados que fizeram o 25 de Abril e o PS de Mário Soares. Do outro lado os golpistas próximos de Vasco Gonçalves e do PCP.

Venceu a democracia.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

O Serviço Nacional de Saúde

Fez agora 43 anos que foi criado o SNS cuja existência se deve ao Dr. António Arnaut. Infelizmente o Sistema de Saúde está a sofrer de vários problemas bem conhecidos de todos. 

As causas dos problemas e da eventual falência do SNS que muitos vaticinam, devem ser estudadas por alguém com competência, isenção e humanidade para não deixar cair o nosso sistema de saúde que já foi considerado o 12º dos melhores do mundo. 

A sustentabilidade do SNS é um imperativo da sociedade democrática de hoje e bem assim dos poderes constituídos. Isto para se continuar a defender, fundamentalmente, a saúde dos portugueses mais desprotegidos e honrar a memória do Dr. António Arnaut. 

Embora me pareça que os dois sistemas(público e privado) possam coexistir, não tenho dúvidas que há interesses subterrâneos na questão da saúde. E aqui estará o nó górdio da questão. Ou será só falta de dinheiro por parte do Estado? 

O que estou certo é que se o SNS fosse um banco não faltava dinheiro para o salvar.

sábado, 10 de setembro de 2022

"Putin vai acordar um dia"

"Putin vai acordar um dia, ver que não tem Estado, e será o fim". Isto diz Sergej Sumlenn, especialista em assuntos europeus. Ver aqui.

Se considerarmos que um grupo de deputados municipais russos há bem pouco tempo "pediu à Duma a demissão de Vladimir Putin de Presidente da Rússia por alta traição," a afirmação de Sergej Sumlenny de que "Putin vai acordar um dia e será o fim", surge como uma profecia que todos os homens de boa vontade e amantes da Paz desejam que se concretize o mais breve possível, pese embora os defensores putinistas que, subtilmente ou não, fazem a apologia da invasão da Ucrânia. É que, em pleno século XXI, não se justifica que um novo Átila (flagelo de Deus) ponha em causa a sobrevivência da Europa e, no sentido mais lato, todo o Ocidente onde vigoram os valores da democracia.

Post scriptum: "É esta a guerra que levará a Federação Russa à desintegração, defende Sergej Sumlenny. O especialista em questões da Europa de Leste e antigo diretor da organização política ecologista Heinrich-Böll-Stiftung, em Berlim, acredita que dentro de poucos anos a Rússia — mescla de várias culturas — será fraturada em Estados independentes, com um ressentimento latente em relação a Moscovo.
O analista político, que há mais de uma década se dedica às questões da Rússia, da Ucrânia e da Bielorrússia, diz, nesta entrevista ao Expresso, que Moscovo não tem qualquer possibilidade de vencer a guerra."

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Os anões de Putin

 Putin tem uma legião de anões mais vasta do que a de Pedro o Grande. Basta pensar em todos os que torcem para que a Rússia ganhe. Quando proclama o seu imorredoiro amor pela paz é isso que o PCP pede.

Pedro, o Grande, tinha aquilo que, até ao século XVIII, se chamava um “gabinete de curiosidades”. Simon Sebag Montefiore, no seu livro sobre Os Romanov, dá-nos a lista de algumas das peças que figuravam nessa colecção: um hermafrodita vivo (que acabou por fugir), anões e gigantes, igualmente vivos, que, depois de mortos, eram embalsamados ao lado dos órgãos genitais de um hermafrodita, irmãos siameses, bebés com duas cabeças e, com o tempo, cabeças embalsamadas de cortesãos (muitos) caídos em desgraça. Mas eram os gigantes e os anões que sobretudo o fascinavam, particularmente os segundos. Fazia-os, por exemplo, em certas festas, saírem nus de enormes bolos. Punha particular empenho em organizar os seus casamentos, escoltando-os até ao leito nupcial. Distribuía-os em grande número aos grandes dignatários. É verdade que gostava também de apresentar gigantes finlandeses vestidos com roupa de bebé. Mas os anões eram a sua especialidade, por assim dizer.

Como se sabe, Putin manifestou recentemente a sua admiração por Pedro, o Grande, a propósito das suas conquistas na guerra contra a Suécia. De algum modo, é com Pedro, o Grande, que Putin se quer medir. Politicamente, entenda-se, já que, fisicamente, o caso é perdido. Pedro, o Grande, era de facto muito alto (2,03 metros, parece), e Putin não passa dos 1,68. Já que a estatura média de um anão é de 1,40, Putin está mais próximo dos anões de Pedro do que do próprio Pedro, o que nos permite pensar que este último o afeiçoaria singularmente. Mas a emulação política permanece compreensível. E até, se formos adeptos da psicologia adleriana, eminentemente inteligível. Um complexo de inferioridade abre largas avenidas para um complexo de superioridade compensatório.

À sua maneira, Putin tem, ele mesmo, uma legião de anões infinitamente mais vasta do que a de Pedro. Basta pensar em todos aqueles que, explícita ou implicitamente, torcem para que a Rússia ganhe, e ganhe depressa, a sua guerra contra a Ucrânia. Quando proclama o seu imorredoiro amor pela paz é isso que, por exemplo, o PCP pede, como toda a gente percebe. O PC tem um lugar de excelência entre a extensa legião dos anões de Putin. Não é uma imagem agradável, mas, em contrapartida, possui alguma verosimilhança: numa esplêndida festa no Kremlin, Putin faria sair, de dentro de um gigantesco bolo, a totalidade dos membros do Comité Central no estado em que a natureza os trouxe ao mundo. Talvez pudesse até dar lugar a uma memorável primeira página do Avante.

Mas não há nenhuma razão para ficarmos pelo PC. Os anões de Putin encontram-se um pouco por todo o lado. E a questão que se coloca é a de saber quais são os ingredientes fundamentais que colaboram de forma activa neste processo de nanização mental e política. Estamos aqui condenados à especulação. A minha, tão boa como outra qualquer, é que um elemento fundamental nesta matéria é um velho tema da filosofia política que encontramos, por exemplo, em Locke e em Hume: o entusiasmo. E o entusiasmo em duas das suas facetas: entusiasmo positivo e entusiasmo negativo.

O entusiasmo positivo é aquele que nos faz aderir incondicionalmente àquilo que desejamos como um bem. O entusiasmo negativo é aquele que nos faz rejeitar, não menos incondicionalmente, aquilo que vemos como um mal. Noutra linguagem, o primeiro é uma figura da atracção, o segundo uma encarnação da repulsa. E, o que é fundamental, ambos devem ser concebidos de um modo absoluto, sem falhas que possam introduzir alguma dúvida ou moderação.

Apliquemos este esquema aos anões de Putin, sem qualquer preocupação de exaustividade. Do lado do entusiasmo positivo encontramos, por exemplo, o velho amor pelo poder bruto, o culto da virilidade como virtude política, a adesão instantânea àqueles que se apresentam como prováveis vencedores e, como pano de fundo, a apetência por regimes políticos não-democráticos. Do lado do entusiasmo negativo, o anti-americanismo puro e duro, o protesto contra a decadência moral do Ocidente, o ancestral desprezo por aqueles que se apresentam como virtuais perdedores e, como pano de fundo, a detestação da democracia.

É indecidível qual dos dois entusiasmos é mais determinante no processo de nanização. O mais provável é eles darem-se ambos inseparavelmente em conjunto. No fundo, o entusiasmo positivo reforça o entusiasmo negativo e o negativo reforça o positivo, em graus que variam conforme os indivíduos. Num aspecto, no entanto, é o entusiasmo negativo que fornece o quadro mais importante da nanização putinesca: porque é ele que permite a criação de teorias conspiratórias que conferem ao processo de nanização a forma de uma certeza alucinada. A sua expressão mais simples é a de que o mundo visível é por definição enganador e que é necessário buscar, por detrás deste, por detrás do óbvio e do patente, um invisível onde resida a verdade que nos é sistematicamente escondida, sob a forma de uma potência maléfica que tudo manobra. A extrema desconfiança dá lugar a uma ilimitada credulidade. Por exemplo: no mundo visível, a Rússia invadiu a Ucrânia num acto de agressão inteiramente livre – mas, no mundo invisível, a invasão russa foi, do princípio ao fim, condicionada e determinada pela exclusiva acção dos Estados Unidos, os únicos verdadeiros responsáveis pela guerra em curso. De resto, por uma idealização simples e com ambições de elegância, os Estados Unidos são os únicos agentes dotados de uma verdadeira causalidade eficaz neste nosso velho planeta.

O “gabinete de curiosidades” de Putin está cheio destas curiosas almas que andam aos pulinhos por todo o lado. Não custa imaginar o olhar terno e benevolente com que o autocrata contempla os seus entusiasmos. Tanto quando aplaudem a guerra como quando falam, de olhos em alvo, da paz. Porque este “pacifismo” tem uma longa história. Ando a ler um livro (excelente) do historiador inglês Tim Bouverie, Appeasing Hitler, que oferece inúmeros exemplos do “amor pela paz” antes da invasão da Polónia. E, é claro, a Inglaterra estava muito longe de ter o exclusivo destas coisas. Em França, basta pensar, por exemplo, em dois autores muito conhecidos: o romancista Jean Giono e o filósofo Alain. Ambos eram pacifistas militantes. Giono, mesmo depois da invasão da França, não via qualquer diferença entre os nazis e os Aliados, além de manifestar no seu diário uma absoluta indiferença face ao destino dos judeus. Alain, que toda a gente, mesmo a que nunca o leu, conhece por causa de uma frase célebre – “Se alguém diz que não é de esquerda ou de direita, certamente que não é de esquerda” –, além de confessar o seu antissemitismo, declarava, também num seu diário, esperar que a Alemanha ganhasse a guerra, “pois é preciso que o género De Gaulle não vença entre nós” (curiosamente, como a Ucrânia para Putin, também para ele a França não tinha sido invadida pela Alemanha – era uma coisa diferente).

Hitler já tinha os seus anões. E os anões de Putin são muito parecidos com os dele. Por mim, tenho às vezes vontade de os mandar para o gabinete de Pedro. Iam sentir-se em casa. 

Paulo Tunhas - in Observador.


quarta-feira, 8 de junho de 2022

Holodomoro estalinista e a chantagem da fome

 

Não é nova a cobiça de Moscovo pelas terras negras e férteis da Ucrânia do sul, à volta das cidades de Kherson, Zaporizhzhia e Odessa.

É lá que é plantada uma quantidade considerável dos cereais ucranianos, a quarta maior produção mundial de milho e a terceira de trigo.

Cereais cobiçados, mas cereais necessários para matarem a fome a uma parte considerável da população mundial. Caso estes cereais apodreçam nos silos ucranianos, 250 milhões de seres humanos ficam em risco de fome e 440 milhões deixam de poder comprar os produtos feitos à base de cereais de que necessitam para o essencial da sua alimentação.

A cobiça pelos cereais ucranianos vem já dos longínquos anos 30 do século passado, do tempo de Estaline. É aquilo a que os ucranianos chamaram de holodomor ou o "deixar morrer à fome". Quase cinco milhões de cidadãos de etnia ucraniana morreram à fome nos anos de 1931 a 1933. A causa foi a bárbara política do ditador soviético Estaline, que obrigou os agricultores ucranianos, através de uma "requisição compulsória", a entregarem ao Estado soviético a maior parte da produção de cereais ucranianos. Três anos que custaram cinco milhões de vidas de ucranianos que pereceram à fome.

Não é pois nova a questão dos cereais na Ucrânia!

Ucrânia e Rússia, os celeiros do mundo, são responsáveis pela produção de 28 % de trigo, 29% de cevada e 78% de óleo de girassol.
É com os cereais da Ucrânia que as Nações Unidas matam a fome a cerca de 155 milhões de seres humanos, que habitam os destinos pobres de África e do Médio Oriente. Egipto, Gana, Senegal, Líbano, vá se lá saber como a população de maior carência de nutrição destes países vai alimentar-se este ano se persistir o bloqueio.

Apesar da guerra e ainda com os silos cheios dos 25 milhões de toneladas da colheira anterior, os ucranianos já lançaram mãos à obra para as sementeiras deste ano. Trigo, cevada, aveia, girassol e soja. Mas os campos estão minados, os trabalhadores agrícolas ucranianos deixaram as alfaias e vestiram o camuflado para combaterem as tropas invasoras russas. A escassez de combustível para os tractores agrícolas, a destruição de silos pelos russos, o bombardeamento de depósitos de combustível, vão fazer cair a produção em cerca de 50% dos 106 milhões de toneladas de cereais que a Ucrânia semeou em 2021. E depois, onde vão os ucranianos armazenar as novas colheitas se as anteriores continuam a apodrecer nos armazéns portuários sem que os navios as consigam carregar?

O cinismo do Kremlin já se fez ouvir sobre o assunto. E lá vem a chantagem! A Rússia está pronta "para ajudar a uma exportação sem entraves", mas só se o Ocidente levantar as sanções. Depois, no dizer de Putin, os barcos não circulam por causa das minas ucranianas no Mar Negro. Mas isso não impediu que um barco russo saísse de Mariupol rumo à cidade russa de Rostov, carregado com 2700 toneladas de metal roubado aos ucranianos num miserável exercício de pilhagem. Pilhagem que chegou também aos cereais, onde os russos estão a carregar navios com cereais ucranianos no porto de Sebastopol, na Crimeia. Um derivado da metodologia estalinista!

Os cereais são uma questão sensível que pode fazer escalar a guerra. Os países bálticos, Estónia e Lituânia, profundos conhecedores do modo de actuação do Kremlin, falaram em enviar navios de guerra para o Mar Negro para furar o bloqueio que a Marinha russa está a fazer aos portos da Ucrânia.

Imagine-se, contudo, o risco de uma operação deste tipo? Mas até quando poderá o mundo continuar a assistir a uma situação de flagrante violação do Direito Internacional? Até quando a Rússia, impunemente, vai continuar na senda de lançar o caos num equilíbrio mundial construído ao longo das últimas décadas? Até quando Putin pode, impunemente, pôr em causa o direito à alimentação de seres humanos mais pobres e desfavorecidos do mundo? Até quando Putin poderá continuar com esta chantagem da fome, com contornos muito idênticos ao que fez Estaline no holodomor?

Mas onde é que Merkel teria a cabeça quando vislumbrou em Putin um parceiro confiável?

DN António Capinha-Jornalista

03 Junho 2022 

quinta-feira, 26 de maio de 2022

De sábio e de louco todos temos um pouco

 

1-Desde sempre que houve homens sábios e prudentes à mistura com loucos.  Nos dias de hoje verificamos que há pessoas e organizações que se preocupam em preservar o meio ambiente. Há também, felizmente, voluntários que dão a sua ajuda desinteressada aos países mais pobres e subdesenvolvidos. Este é o lado positivo. Mas há também pessoas que fomentam a guerra e o terrorismo. Lançando milhares de pessoas na miséria e no sofrimento.  Vemos ainda agricultores que destroem os produtos agrícolas que têm em excesso e não conseguem escoar, quando há povos a morrer à fome e que precisam deles para sobreviver. Este é o aspecto mais negro a que podemos designar de loucura.

Vem isto a propósito do livro “ Elogio da Loucura “ de Erasmo ( 1).  Quase todos já ouviram falar do programa Erasmo que permite aos estudantes universitários o intercâmbio e a mobilidade com outras universidades europeias. Acredito, porém, que poucas saibam quem foi a figura que deu o nome a esse programa.

 

2- Erasmo nasceu em Roterdão na Holanda em 1496 e morreu em 1536 na Basileia, Suiça, com 70 anos de idade. Foi frade dos cónegos regrantes de Santo Agostinho e obteve o grau de doutor pela Universidade de Bolonha. Distinguiu-se ainda como filósofo, pedagogo e moralista. Viveu no período agitado da Reforma protestante e foi uma grande figura do humanismo cristão e do renascimento. É contemporâneo de Maquiavel e de Tomás Morus de quem era amigo e a quem dedica o livro “ Elogio da Loucura “. Sabe-se também que manteve contactos com os portugueses André de Resende e Damião de Góis.

Da leitura das suas obras podemos concluir que era um crítico dos métodos escolásticos e que rejeitava a filosofia e teologia medievais. Tal como Lutero advogava a reforma da Igreja mas nunca entrou em ruptura com Roma. Entendia que  tudo se devia resolver por meios pacíficos e nunca através de revoluções. A Igreja para se reformar teria tão só de  seguir um cristianismo simples, autêntico e de acordo com o Evangelho. O seu intuito reformador mereceu de alguns críticos do século XVI, o seguinte comentário :  "Erasmo pôs os ovos que Lutero chocou. “ Mais tarde chegou mesmo a ser designado de  “erasmismo “ à corrente que seguiu o pensamento de Erasmo

 

3-De todas as obras de Erasmo a mais popular e talvez a mais lida foi sem dúvida  “ O Elogio da Loucura “ Erasmo elogia ironicamente a loucura dos que se sentem bem na ignorância e na estupidez ou na exploração dos mais fracos. A Loucura manifesta-se em todas as classes da sociedade. As críticas abarcam um leque muito variado de temas: a guerra que é “ feita de parasitas, infames, ladrões, assassinos, imbecis, devedores , escroques em suma pela escória da sociedade “  ; as superstições dos que rezam ,fazem votos e acendem velas pelas intenções e promessas mais absurdas ; os maus teólogos  que se interessam  por mesquinhices e formalidades sem sentido ; os sermões de alguns frades em que “ a erudição é tanta que os Apóstolos precisariam de outro Espírito Santo para discutirem esses assuntos com os novos teólogos “ .  Erasmo critica ainda os jurisconsultos (“ que pretendem o primeiro lugar, pois são os mais vaidosos dos homens “ ; os filósofos (“  não sabem nada e gabam-se de que tudo sabem  e nem se conhecem a si próprios “ ) ;  os reis e príncipes ( “ julgam cumprir plenamente a função real indo assiduamente à caça, criando belos cavalos, traficando a seu grado cargos e magistraturas, inventando todos os dias novos processos de o seu fisco se apoderar das fortunas dos súbditos .. “ )

Tal como Gil Vicente , fustigou os grandes do seu tempo ( meirinhos, juízes, corregedores ) e foi mesmo acusado de  “erasmismo “ devido ao seu espírito crítico e reformador, também Erasmo não poupou ninguém, chegando mesmo a criticar os soberanos pontífices, cardeais e bispos ( “ hoje em dia os bispos apenas se preocupam em apascentar-se a si próprios, deixando o cuidado do rebanho a Cristo e aos que chamam irmãos e seus vigários “ )

Mais para o fim do livro, Erasmo refere outro tipo de loucura, ou seja , a dos que se deixaram arrebatar pela piedade cristã e desprezando as coisas do mundo se orientam para a vida espiritual que conduz à eternidade.

 

4-O Elogio da Loucura é um tema ainda hoje actual.  Na sociedade em que vivemos encontramos, como no século XVI, um pouco de tudo :  os que se dedicam à fraude e à corrupção ; os bobos da política ou que fazem da política um espectáculo ; os servidores subservientes que procuram agradar para daí colher os seus frutos e os políticos com intuitos modernizadores que mandam às malvas a ética e a moral.

Mas no mundo nem tudo é mau. Felizmente também ainda há os que se deixam apoderar de uma sã loucura. Estão neste caso os que se dedicam a actividades humanitárias e filantrópicas ; os que ajudam com dinheiro ou em géneros os pobres e necessitados e também os que procuram por todos os meios assegurar a Paz no Mundo.

 

1- As citações foram extraídas do livro “ Elogio da Loucura- Erasmo, publicações Europa-América .

 

 

 

FRANCISCO  MARTINS

 

Nota: a actualidade e a pertinência do texto da autoria de Francisco Martins que parabenizo é evidente; sacado do blog pontodemira.blogs.sapo.pt às 20:57