quinta-feira, 14 de maio de 2015

O Amanhecer de outra Era



"É impossível que o tempo actual não seja o amanhecer doutra era, onde os homens signifiquem apenas um instinto às ordens da primeira solicitação. Tudo quanto era coerência, dignidade, hombridade, respeito humano, foi-se. Os dois ou três casos pessoais que conheço do século passado, levam-me a concluir que era uma gente naturalmente cheia de limitações, mas digna, direita, capaz de repetir no fim da vida a palavra com que se comprometera no início dela. Além disso heróica nas suas dores, sofrendo-as ao mesmo tempo com a tristeza do animal e a grandeza da pessoa. Agora é esta ferocidade que se vê, esta coragem que não dá para deixar abrir um panarício ou parir um filho sem anestesia, esta tartufice, que a gente chega a perguntar que diferença haverá entre uma humanidade que é daqui, dali, de acolá, conforme a brisa, e uma colónia de bichos que sentem a humidade ou o cheiro do alimento de certo lado, e não têm mais nenhuma hesitação nem mais nenhum entrave.
Miguel Torga, in "Diário (1942)"

Quão longe estão os valores de hoje daqueles de que falava Miguel Torga, um Homem sério e autêntico como as fragas da sua terra. Dá para pensar, sobretudo, na "ferocidade" de certos actos e acções de delinquentes, vítimas de uma sociedade em crise, que despejam as suas frustrações no seu semelhante. Dá para pensar em certos políticos e outros quejandos que, para sair da crise e solver a dívida de que eles são os principais autores, não hesitam em sacrificar os cidadãos mais vulneráveis, cuja "pobreza está a ser substituída pela miséria", Se Torga fosse vivo iria certamente verter lágrimas pelo seu país, como bom português que era. Mal feito fora que o "Tempo Actual não Seja o Amanhecer doutra Era". Mas, com esta gente que nos governa, tenho dúvidas que o tal Amanhecer desponte alguma vez

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